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PRECARIZAÇÃO 2026: Quase 2 milhões de brasileiros trabalharam por aplicativos em 2025, aponta IBGE.

  • há 36 minutos
  • 4 min de leitura


Letícia Sales


Levantamento mostra jornadas mais longas, maior informalidade e rendimento por hora inferior entre trabalhadores de plataformas digitais


Cerca de 1,96 milhão de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O grupo representa 1,9% de todos os ocupados no país.


O levantamento considera trabalhadores com 14 anos ou mais que utilizam plataformas digitais para realizar atividades de transporte, entregas e prestação de serviços. O IBGE chama esse grupo de “plataformizados”.


Entre eles, aproximadamente 1,2 milhão atuavam com transporte de passageiros, o equivalente a 58,9% do total. Desse número, cerca de 1,1 milhão trabalhavam por plataformas como Uber e 99, enquanto 232 mil utilizavam exclusivamente aplicativos de táxi.


As entregas também representam uma parcela significativa. Cerca de 376 mil pessoas, ou 19,2% dos trabalhadores plataformizados, atuavam com entregas de alimentos e outros produtos por aplicativos como iFood, Rappi e Zé Delivery.


Já os aplicativos voltados à prestação de serviços gerais ou profissionais reuniam aproximadamente 313 mil trabalhadores, o equivalente a 16% do total. A categoria inclui atividades como design, tradução e até atendimentos médicos realizados por meio de plataformas digitais.


O setor de transporte, armazenagem e correios é o que concentra a maior proporção de trabalhadores plataformizados: 75%. Na prática, isso significa que três em cada quatro trabalhadores dessa área utilizavam aplicativos em suas atividades.


Número cresce entre 2022 e 2025


O IBGE ressalta que a pesquisa sobre trabalho por plataformas ainda tem caráter experimental e está em fase de avaliação. O levantamento também foi realizado em 2022 e 2024, mas as edições anteriores consideravam apenas quem tinha o trabalho por aplicativo como ocupação principal.


Em 2025, o instituto passou a incluir também pessoas que utilizavam os aplicativos como fonte de renda complementar. Por isso, o total de 1,96 milhão não pode ser diretamente comparado aos resultados anteriores.


Considerando apenas quem tinha o trabalho por aplicativo como principal ocupação, o número chegou a 1,8 milhão de pessoas em 2025. Esse contingente era de 1,3 milhão em 2022 e de 1,7 milhão em 2024.


O resultado representa crescimento de 9,1% em relação a 2024 e de 36,8% na comparação com 2022. Entre 2024 e 2025, o maior avanço ocorreu entre os entregadores de aplicativos, categoria que cresceu 18,6%.


Falta de emprego é principal motivação


A pesquisa também investigou por que os trabalhadores escolheram atuar por meio das plataformas. Entre motoristas de aplicativos de transporte, com exceção dos taxistas, e entregadores, a principal justificativa foi a dificuldade de encontrar outro trabalho.


A flexibilidade da atividade e a possibilidade de obter uma renda maior do que em outras oportunidades disponíveis também apareceram entre os motivos apontados pelos entrevistados.


Entre aqueles que tinham os aplicativos como ocupação principal, 84,4% eram homens. Em relação à faixa etária, 47% tinham entre 25 e 39 anos.


Mais horas de trabalho e menor rendimento por hora


Apesar de apresentarem rendimento mensal semelhante ao de trabalhadores que não utilizam plataformas, os plataformizados trabalham mais horas por semana.


Em 2025, o rendimento médio mensal do trabalho principal foi de R$ 3.147 entre os plataformizados, praticamente igual aos R$ 3.148 registrados entre os demais trabalhadores.


A diferença aparece quando o valor é analisado por hora. Os trabalhadores de aplicativos cumpriam, em média, 44,7 horas semanais, enquanto os não plataformizados trabalhavam 39,3 horas.


Com uma jornada 5,4 horas maior por semana e rendimento mensal praticamente igual, o trabalhador de aplicativo recebeu, em média, R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 entre os demais ocupados. A diferença chega a aproximadamente 12%.


O IBGE considera, nesse cálculo, o valor efetivamente retirado pelo trabalhador depois de descontados custos diretamente relacionados à atividade, como combustível utilizado por motoristas.


Informalidade é maior entre plataformizados


Outro ponto destacado pela pesquisa é a elevada informalidade. 72,1% dos trabalhadores por aplicativos estavam na informalidade em 2025, enquanto a taxa entre os demais ocupados era de 42,7%.


A diferença também aparece na cobertura previdenciária. Apenas 34% dos plataformizados tinham cobertura, diante de 63% entre os trabalhadores que não utilizavam plataformas.


O IBGE considera informais, entre outros grupos, empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta própria que não possuem CNPJ. Nessa situação, ficam de fora garantias associadas ao emprego formal, como férias e 13º salário.


Trabalhadores são autônomos, mas dependem das plataformas


A maioria dos trabalhadores de aplicativos se declara como conta própria. Em 2025, aproximadamente 86,8% dos plataformizados estavam nessa condição, percentual muito superior aos 28,9% registrados entre os ocupados do setor privado em geral.


Apesar disso, os dados indicam que essa autonomia é acompanhada por forte dependência das plataformas.


Entre motoristas de aplicativos de transporte, excluindo os taxistas, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada tarefa depende totalmente da plataforma. Entre os entregadores, a proporção foi de 78,3%.


Além disso, 65,9% dos entregadores disseram que o prazo para concluir uma tarefa é determinado pelo aplicativo, enquanto 71,3% afirmaram que a forma de recebimento do pagamento também é definida pela plataforma.


Segundo o analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, esses profissionais vivem uma situação diferente daquela observada entre trabalhadores autônomos tradicionais.


“Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital”.


Dados surgem em meio ao debate sobre vínculo trabalhista


A divulgação da pesquisa ocorre em meio à discussão sobre a chamada “uberização” do trabalho. O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou recentemente a retomada do julgamento que trata da possibilidade de reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas digitais.


Representantes de motoristas e entregadores defendem o reconhecimento de direitos trabalhistas e afirmam que o atual modelo contribui para a precarização das relações de trabalho. As principais empresas do setor, por outro lado, contestam a existência de vínculo empregatício.


A Procuradoria-Geral da República (PGR) também apresentou parecer contrário ao reconhecimento do vínculo entre motoristas e aplicativos.


Os números do IBGE ajudam a dimensionar a importância que esse modelo de trabalho já alcançou no mercado brasileiro: são quase 2 milhões de pessoas utilizando plataformas digitais para gerar renda, muitas delas em jornadas extensas e com baixa proteção previdenciária.



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Em homenagem ao Fabiano Bizetto;

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