ARTIGO: Você, Senhor ou Senhora? Como teus filhos te chamam?


Fonte: O Pêndulo

Por Ben-Hur Macedo, jornalista/colunista do jornal O Pêndulo

Tenho três filhos: 35, 42 e 44 anos. Com a graça de Deus, muito tempo e persistência, conseguimos passar para eles valores importantes para que uma pessoa seja bem recebida e querida na família e nos ambientes que frequenta – respeito, educação, gentileza e cavalheirismo. Lembro-me de que cheguei a parar de lecionar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, para poder ficar com eles em casa à noite, quando ainda tinham três, quatro anos. Foi uma das melhores coisas que fiz em minha vida. No início deste mês, meu filho mais novo trouxe-me uma questão curiosa e inesperada: -“Pai, como foi que eu e meus irmãos começamos a chamá-lo de senhor e mamãe de senhora?”. Pergunta diferente, não é? Mas, não tive dificuldade em responder. -“Acredito que tenha sido porque vocês nos viam dirigir-nos dessa forma aos nossos pais e às pessoas mais velhas em geral”, respondi. -“Mas, foi só isso ou vocês nos ensinaram a chamá-los assim?”, ele continuou. Eu imaginei que ele havia se sentido “forçado” a nos chamar assim quando pequeno e não gostasse disso, mas expliquei: -“Nós os ensinamos, pois sempre achamos que os nossos pais e as pessoas mais velhas deviam ser respeitadas e, no contexto familiar em que fomos criados, senhor e senhora eram tratamentos respeitosos,” expliquei. Aí, a curiosidade passou para mim. -“Por que você está me perguntando isso?”, eu quis saber. -“É que meus amigos sempre me perguntam.” -“Sério? E o que eles acham disso?” -“Eles acham diferente. Na verdade, acham legal. Alguns dizem que nas famílias deles é não é assim.” -“E você, o que acha?” -“Eu gosto. Esse é um tipo de tratamento que eu gostaria de receber dos meus filhos futuramente”. Ele não tem filhos. Essa foi a melhor parte da prosa para mim. Fiquei feliz em saber que meu filho me vê como um modelo, mesmo que seja em um assunto aparentemente sem muita importância como este. E eu nem contei para ele que, quando encontrava ou me despedia dos meus pais, eu pegava a mão do meu pai ou da minha mãe, dava um beijo e dizia “bença, pai” ou “bença, mãe”. Quando eles me respondiam “Deus te abençoe, meu filho”, eu me sentia muito bem e parecia que ficava protegido de todos os perigos. Quando eu ainda morava em São Paulo e meus pais aqui em Campo Limpo Paulista, eu telefonava todos os dias às 18:00 horas para o meu pai, que já ficava ao lado do aparelho, esperando minha chamada. -“Bença, pai”, era a primeira coisa que eu dizia. “Deus te abençoe, meu filho”, ele respondia. Pronto… meu coração transbordava de alegria. Bons tempos… já não o tenho mais. Entendo perfeitamente que os tempos mudaram e que filhos e filhas chamarem pai e mãe de você não significa que não os respeitem e não os amem. Pelo contrário, pode significar mais respeito, mais proximidade e mais confiança. O que realmente importa é que nós – pais e mães – precisamos entender claramente que o futuro emocional dos nossos filhos depende muito da forma como os educamos e do tempo que dedicamos a eles. E que cabe a nós educá-los, não à escola. Por isso, o que mais me preocupa nas relações familiares de hoje não é “você, senhor ou senhora”. É que, forçados pelas demandas da sociedade consumista em que vivemos, muitos pais não têm mais tempo de ficar com seus filhos, de ouvi-los e conhecer suas dificuldades e desejos mais íntimos. E, pior, quando estão com seus filhos, dão mais atenção a conteúdos praticamente inúteis do celular do que a eles. O que esperar deles depois? Isso vale uma reflexão, não vale?